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  • Pensar a Dois

Precisamos falar sobre os netinhos da Ditadura


O grande perigo que habita a internet atualmente não são os haters.


Não são as fake news.


Não são as correntes que a tia Odete manda.


São os netinhos da ditadura.


Os netinhos da ditadura (descendentes diretos dos filhotes da ditadura, raça que muitos julgavam extinta) são seres intrigantes, mal-humorados (eles detestam o sarcasmo da lacrosfera) e, desconfio eu, muito carentes de terapia, sensatez e de um abraço apertado, talvez.


Os netinhos são jovens e adultos que nasceram pós-1985, em um regime democrático, de liberdade de expressão e de imprensa, de cidadania ativa, com a ampliação da igualdade de direitos, de respeito às diferenças, com direito ao voto e que, estranhamente, são “saudosos” e defensores de um tempo que não viveram e no qual não havia nem sombra disso: o da ditadura militar.


Com a recente volta dos militares ao poder (desta vez sem golpe), os netinhos se multiplicaram e, fortalecidos, puderam tirar a sanha virtual do coldre. Assim, passam o dia inteiro nas redes sociais vociferando e ofendendo qualquer pessoa que ouse criticar a ditadura militar (que eles chamam de “revolução”) e questionar o atual e brancaleônico governo, como se divergências de opinião, senso crítico e liberdade de expressão fossem tão degradantes como pendurar alguém no pau-de-arara.


Precisamos falar sobre os netinhos da ditadura pois não se pode ignorar o iminente perigo de uma expressiva parcela desta nova geração estar sendo moldada com a falácia de que a democracia é mãe de todos os males e que a ditadura militar e seus simulacros são uma espécie de babosa moral-política-econômica-ética, um unguento mágico que pode ser usado para sanar todas as feridas do país.


Na cândida e distorcida imaginação verde-oliva dos netinhos, a ditadura foi um período áureo. Aliás, ditadura não. Segundo eles, foi uma providencial e heroica revolução militar para evitar que o país caísse nas mãos dos comunistas, devoradores de criancinhas e adoradores do tinhoso.


Talvez os netinhos ignorem – por não terem recebido nenhum videozinho pelo Whatsapp explicando - que os próprios redatores do AI -5 (o período mais tenso do regime militar) tenham caracterizado o ato como uma ditadura, coroada pelo lapidar voto do então ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, que mandou às favas todos os escrúpulos de consciência.


Precisamos falar sobre os netinhos da ditadura pois é compreensível a desilusão e revolta da população, principalmente entre os mais jovens, frente ao cenário nada auspicioso que se desenhou no país nos últimos anos. Mas é nosso dever alertá-los que usar o período da ditadura militar como um ideal, uma referência de probidade, um oásis de prosperidade, ordem e progresso é um devaneio com enredo pra lá de orwelliano. É apagar incêndio com gasolina.


Cegos pela ignorância, ingenuidade e ódio, os netinhos acham que a corrupção – sem dúvida o grande câncer da política brasileira - é uma invenção da democracia, ou da esquerda mais precisamente. Eles não enxergam que a corrupção só está sendo divulgada, investigada, combatida e devidamente punida (doa e quem doer) única e exclusivamente por que estamos em um regime democrático, com divisão e autonomia entre os poderes, imprensa livre e sociedade com voz ativa.


Em uma ditadura (seja de direita, esquerda, frente ou verso) esse processo jamais aconteceria. Os casos de corrupção seriam jogados para debaixo do tapete, principalmente se envolvessem quem detém o poder e seus protegidos. Ou, se fosse combatida, seria com uma ortodoxia tirana, no estilo “aos amigos, tudo, aos inimigos o rigor da lei”, não oferecendo direito de defesa e com execuções sumárias, como acontecia (e acontece) em diversas ditaduras, como na União Soviética, na China, em Cuba, na Coréia do Norte e na Alemanha Nazista.


Democracia, parafraseando Churchill, “é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”. Está longe de ser perfeita, mas é o sistema que dá mais poder ao cidadão. Nosso problema é que fazemos pouco uso desse poder. São séculos de alienação, submissão e maus-tratos que minam nosso protagonismo, e ainda temos muito para evoluir para exercer a democracia em sua plenitude.


Corrupção não é algo inventado na redemocratização. Ela permeia nossos tristes trópicos desde a época que se trocava espelhinhos por pau-brasil, e com o tempo se sofisticou. E foi praticada à mancheia na época da Colônia, do Império, da República e – claro - da Ditadura Militar. Sim netinhos, imagine a facilidade de surrupiar o erário sem oposição, sem imprensa livre e com o Judiciário sob a mira das baionetas...


Não existe essa história de ditadura boa, nem ditadura necessária, como muitos netinhos acreditam. Isso é Fake News, das brabas! Ditadura não resolve (pelo contrário, só piora) corrupção, desemprego, desigualdade social, violência, falta de educação, fome, a precariedade na saúde. Democracia sim. Leva tempo, são necessários ajustes permanentes, mas só com a democracia iremos evoluir.


Precisamos falar sobre os netinhos da ditadura para explicar-lhes que quem defende a ditadura é leviano e egoísta. Leviano pois faz pouco caso dos seus direitos, prefere delegar o seu poder de decisão a outros, seja escolher um representante no legislativo no executivo, o tipo de educação que formará seus filhos ou o tipo de informação que terá acesso. E egoísta pois, para fazer valer sua leviandade, não se importa que os direitos dos demais cidadãos sejam revogados.


Precisamos falar sobre os netinhos da ditadura, pois a fábrica mitômana de inventar novas verdades (a mais recente, enquanto escrevo este artigo, é que o Nazismo é um movimento de esquerda...) está operando com força máxima, produzindo monstros em série, cheios de ódio e “razão”, sedentos para corroer os alicerces democráticos do país. É preciso abrir-lhes os olhos, explicar a importância da democracia, da cidadania, da busca coletiva por soluções que visem o bem geral da Nação.


Facilmente manipuláveis, os netinhos não percebem que estão sendo vítimas de uma Síndrome de Estocolmo anacrônica, na qual o dominado se apaixona e defende seu dominador. É fácil encontrar nas redes sociais, principalmente no período que antecedeu o aniversário do golpe, comentários de jovens que se esmeram na profusão de barbaridades com as quais vem sendo doutrinados, tipo “A revolução foi necessária pois o Brasil não estava preparado para a democracia”, “Os militares nos salvaram da ameaça comunista” e outras aberrações.


Se alguns comentários chamam a atenção pela retórica pelega, pela submissão parva, outros se destacam por um silogismo quase infantil (“meus avós disseram que o regime militar foi muito bom, tinha mais emprego, era mais seguro” ou “naquele tempo as pessoas eram mais educadas, diziam bom dia, boa tarde”) e outros ainda por dar vazão a um sadismo mal resolvido (“tem que matar esses esquerdopatas mesmo” ou “viva o general Ustra”). Ah, sim e não podemos esquecer o chavão “O Lula está preso, babaca”, usados pelos netinhos para fugir de qualquer discussão que exija uma concatenação de ideias um pouco mais robusta.


Como disse uma vez Darcy Ribeiro, “a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”. Século após século, governo após governo, a técnica continua atuante, manipulando as pessoas a bel prazer dos dominantes, independentemente da linha ideológica que sigam. Não se pode menosprezar a pujança e eficiência da ignorância, visto o repertório dantesco de crenças que os netinhos estão desenvolvendo.


Veja a seguir algumas delas. Parece coisa do Sensacionalista. Mas infelizmente não são.


A Globo é comunista. Jamais pensei que viveria para ouvir tamanha obscenidade. Comunista, justo a emissora criada para defender a ditadura militar? Curioso que a emissora “não era comunista” até pouco tempo atrás, quando fazia uma ampla e incisiva cobertura da Lava-Jato, do processo de impeachment de Dilma e da prisão de Lula... A verdade é que se conhecessem um tiquinho do que se passava na coxia da emissora dos Marinho, os netinhos teriam que se ajoelhar 5 vezes ao dia voltados ao Jardim Botânico em agradecimento.


Na ditadura não havia corrupção. É tanta ingenuidade que até Pollyana fica constrangida. A ditadura chegou a criar a Comissão Geral de Investigações (CGI) para, teoricamente, combater a corrupção. Mas ela acabou sendo usada como um instrumento de investigação contra inimigos políticos, como João Goulart, Leonel Brizola e Juscelino Kubitschek. Mesmo com a Lei de Acesso à Informação, os processos comprometedores (provavelmente por incluírem muita gente com o rabo preso) continuam secretos. Por que será? Além disso, com todos os veículos de comunicação censurados e o Judiciário com os olhos vendados e as mãos atadas, as denúncias não chegavam à população. Daí a falsa percepção que a ditadura foi um oásis de moralidade.


Houve progresso econômico. O chamado 'milagre econômico' é uma grande farsa. Com o patrocínio dos Estados Unidos, o Brasil foi inundado por um tsunami de crédito. O objetivo era injetar o máximo possível de dinheiro no Brasil, principalmente na construção de grandes obras e na expansão de multinacionais. Entre os anos de 1968 e 1973, o Brasil viveu um expressivo crescimento do PIB, com uma média de 10% ao ano, inflados artificialmente. Afinal esse dinheiro não veio de graça. Em 1964 a dívida externa brasileira era de US$ 3,2 bilhões. Em 1985, ao final da ditadura, ela era de US$ 105 bilhões. A conta chegou e quem pagou foram os governos civis, que tiveram que conviver com inflação, déficit elevado da balança comercial, desvalorização da moeda, desemprego e uma profunda recessão econômica que durou até o final da década de 1990. Aliás, essa política perversa de boa vizinha não foi implementada apenas no Brasil, mas em boa parte da América do Sul, como na Argentina, no Chile, Paraguai, Uruguai que, não por acaso, também foram controlados por ditaduras na mesma época.


Professores são doutrinadores da esquerda. Para os netinhos, professores são inimigos públicos. Como se já não bastasse ganharem pouco, serem desrespeitados, trabalharem em condições precárias, agora estão sob fiscalização do governo e dos netinhos, sob a alegação que são doutrinadores da esquerda. Ora, se isso fosse verdade, Bolsonaro jamais teria ganho as eleições. Quem usa as escolas para doutrinar alunos são regimes totalitários, ditaduras, como a do regime militar. Para quem não sabe, na época as disciplinas de Sociologia e Filosofia foram substituídas pela Educação Moral e Cívica e OSPB (Organização Social e Política Brasileira) que, curiosamente, estão sendo pleiteadas para retornaram neste governo. Curioso, não?


Retomando, precisamos falar sobre os netinhos da ditadura pois em suas cabecinhas implementar uma ditadura para suplantar a ameaça de um governo (eleito democraticamente) dito socialista, que queria promover a “perigosíssima” (perigosa para quem??) reforma agrária, faz todo o sentido. Precisamos trazer-lhes à luz que fechar o congresso, censurar os veículos de comunicação e manifestações culturais, tirar o direito ao voto, prender, torturar e matar opositores, não são medidas constitucionais.


Precisamos falar sobre os netinhos da ditadura, pois eles acham que no regime militar só bandidos, sequestradores, terroristas e “ameaçadores à soberania nacional” eram presos, torturados e mortos. Precisamos conscientizá-los que jornalistas, advogados, diplomatas, vereadores, prefeitos, professores, deputados, artistas, sindicalistas, líderes religiosos, estudantes, médicos, funcionários público, foram perseguidos, afastados, exonerados, aposentados, presos (e alguns mortos) sem cometer crime algum, simplesmente por se oporem ao regime vigente.


Precisamos falar sobre os netinhos da ditadura pois não podemos ficar de braços cruzados e dormir tranquilamente enquanto uma ameaça à democracia, à liberdade, está sendo plantada sorrateiramente nos corações e mentes de nossos jovens. Não podemos deixar essa história nefasta se repetir. NUNCA MAIS! NUNCA MAIS! NUNCA MAIS!


PS: E, para finalizar, se você, netinho, acha que tudo o que foi escrito é exagero de um esquerdopata (rsrs), e que não houve golpe, e sim uma revolução, que não houve ditadura e sim um regime militar, façamos o seguinte exercício de empatia.


Imagine que um grupo de antípodas, com farto patrocínio estrangeiro, consiga depor o presidente Jair Bolsonaro (ELEITO DEMOCRATICAMENTE, ASSIM COMO JOÃO GOULART O FOI) por considerá-lo uma ameaça a soberania nacional (seja lá o que isso signifique).


Os antípodas fecham o congresso, prendem opositores, censuram as mídias, vetam as eleições diretas. Você e outros simpatizantes de Bolsonaro (que foi para o exílio em Israel, juntamente com um soldado e um cabo) protestam. Por conta disso, são presos e torturados, alguns mortos.


Você consegue sair da prisão, mas é constantemente perseguido, vigiado. Você vive com medo, temendo “desaparecer”, como aconteceu com alguns amigos. Mesmo assim, mantém-se contrário ao novo governo, em silêncio.


Até que, depois de 20 anos de luta, o regime cai, os opositores são soltos, o congresso é reaberto, as eleições diretas voltam e a censura acaba.


Feliz, você sai com a família e os amigos para comemorar (marque a alternativa correta com um “X”):


( ) O fim da ditadura impetrada por um golpe


( ) O fim do regime antípoda, que livrou o país de uma ameaça à soberania nacional por meio de uma revolução heroica.


Responde aí, netinho.


Denis Zanini

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