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  • Pensar a Dois

O discurso brutalizado contra a liberdade de expressão


Existe hoje no Brasil um entendimento (ou seria um sentimento?) equivocado de que para exercer a liberdade de expressão é praticamente obrigatório usar um discurso desrespeitoso, beligerante, irresponsável, visando causar dano à reputação de algo ou alguém.


Nas redes sociais, são fartos os exemplos de pessoas que inventam fatos, ofendem quem não concorda com seu ponto de vista e buscam o embate raso com a mesma naturalidade com a qual checam mensagens no Whatsapp. Parece que o importante não é defender um argumento pela articulação de ideias e sim desqualificar – de preferência com um vocabulário torpe - o oponente.


A liberdade de expressão é uma grande conquista e como tal deve ser zelada, defendida e respeitada. E, para mantê-la em sua essência democrática, ela tem que ser compreendida em sua plenitude, por toda a sociedade. Mas o que temos percebido é que apenas parte do seu significado vem sendo difundido e assimilado.


Um princípio básico e que aparentemente muita gente não sabe (ou finge não saber) é que toda liberdade traz consigo direito e deveres. Você tem todo o direito de expressar o que pensa, mas tem como dever se responsabilizar por suas palavras. Se não houver equilíbrio entre esses dois pratos, a anarquia toma conta da balança.


Liberdade de expressão não é uma luta de vale tudo na terra de ninguém. Afinal, até no vale tudo há regras. Infelizmente, há um número expressivo de pessoas que, como crianças mimadas, prefere se concentrar apenas nos direitos, relegando os deveres.


Ou seja, acham que podem xingar, mentir, difamar ao bel prazer, e quando sofrem algum tipo de contrapartida por conta de seus atos, ficam possessas, alegam que estão sendo perseguidas ou injustiçadas.


Ora, cada um tem que ser responsável pela palavra proferida, seja falada ou escrita. Se afirmou algo que atinge um terceiro, fundamente, prove. Se difamou, esteja consciente que o alvo da difamação pode ir à Justiça. Faz parte do jogo democrático. Afinal, seria muito cômodo jogar lama no ventilador e ficar assistindo tudo incólume, de camarote, de banho tomado.


Cada um deve arcar com as consequências de seu discurso, sejam elas positivas, neutras ou negativas. E vale sempre lembrar que manifestações primitivas, imaturas, raivosas são um verdadeiro imã deste último tipo de retorno.


Aqui cabe um parênteses importante: quero deixar claro que não sou favorável à prisão, nem mesmo de aplicação de multas nesses casos. Quando comprovado judicialmente que a pessoa agiu de má fé ou feriu a honra de outra pessoa, acredito que o ideal é ter uma retratação pública ou direito de resposta, nos mesmos canais, na mesma quantidade de texto ou tempo de áudio/vídeo. E também, como defensor da democracia, da verdadeira liberdade de expressão, condeno qualquer tipo de censura. Todos temos o direito de nos expressar, sem repressão, sem medos. Fecha parênteses.


"Discordo do que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo”, disse a escritora Evelyn Beatrice Hall (muita gente acha que a frase é de Voltaire, mas não é). Eu concordo e acrescentaria: “desde que você se responsabilize por suas palavras”.


O fato é que o discurso brutalizado, baseado na agressão verbal, em falácias, é, na verdade, um inimigo ardiloso da liberdade de expressão. Ele se traveste de libertário, mas no fundo o que quer é inibir, controlar e sobrepujar quem não usa os mesmos artifícios de “argumentação”, quem não se nivela por baixo.


O tom agressivo serve para melindrar quem pensa diferente, para que o outro não use sua oportunidade de fala e para que não haja debate. Regimes totalitários (sejam de direita ou de esquerda) usam e abusam desta técnica pois eles desejam que liberdade de expressão seja exercida apenas por quem os defende.


É sempre bom lembrar que existem técnicas de comunicação não agressiva muito mais eficazes na construção do diálogo do que a ofensa pura e simples. Em vez de xingar, acusar, por que não levantar questões provocativas e propor a reflexão?


Por isso, como responsável por suas palavras, vale sempre analisar, pensar, refletir sobre o que você irá publicar nas redes sociais. E se você tem alguma dúvida sobre como fazer isso, aqui vai a dica de uma técnica bem eficiente.


Imagine que o seu texto publicado no Facebook será impresso em proporções gigantescas e publicado em outdoors por todo país, com sua foto e seu nome. Ou que o seu vídeo no Youtube será veiculado em rede nacional e será visto por seus filhos, pais, amigos, colegas, vizinhos. Você se orgulharia ou se envergonharia do conteúdo exposto?


Pense nisso.


Denis Zanini



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