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  • Pensar a Dois

Minha vida em modo (quase) avião


“Muita gente quando acessa a internet não navega, naufraga” – Mario Sergio Cortella


Vivemos a era das mentes obesas de informação e raquíticas de conhecimento.


Mantemos nossas mentes escravizadas e doentes, insaciavelmente famintas por notícias, redes sociais, apps, na vã tentativa de aplacar nossa fome de informação - disfarçada de distração.


Temos que alimentá-las com um fast food variado de estímulos, de distrações, pois temos medo de nos olharmos no espelho e viver no mundo VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo) no qual estamos.


Por isso estamos sempre ocupados, com pressa, numa eterna fuga sem destino.


Sim, estamos sempre fugindo das coisas que realmente importam.


Fugindo do autoconhecimento.


Fugindo de conhecer verdadeiramente o próximo.


De admitir nossas fraquezas e inseguranças.


De declarar nosso amor.


De perceber que não temos controle de tudo.


De se convencer que a única constante na vida é a mudança.


De que a tão sonhada estabilidade não existe.


De fazer uma pausa para meditar.


De “perder tempo” ouvindo quem pensa diferente de nós.


De tomar decisões capitais.


De aflorar o nosso lado espiritual.


De sermos generosos.


De sermos livres e donos do nosso destino.

De não termos desculpas para não ter uma vida feliz.


Daí vem o excesso de informação para nos salvar desses dilemas, para desviar o foco do que é relevante em nossas vidas.


Os smartphones, aliados a outros dispositivos (tablets, notebooks), são um grande aliado nessa tresloucada escapada, nos momentos de combate ao microtédio, o grande horror da sociedade atual.


Nem que seja por um segundo, estar “desocupado”, sem os olhos grudados em uma telinha ou o fone plugado na orelha é uma afronta à evolução humana.


Somos condicionados a acreditar que é hype saber sobre tudo o que acontece no mundo, a cada instante, para não ficarmos alienados, alijados lacrosfera e perdemos nosso cobiçado status social.


Nos informamos sobre tudo e não nos aprofundamos em nada. Estamos simultaneamente presentes em todos os lugares e em lugar nenhum.


Ora, não saber da chacina do último final de semana, da mais recente rixa entre grupos políticos, do meme do momento ou do novo affair de uma celebridade não faz de você um alienado.


Para mim, isso pode ser muito mais um sinal de sanidade, de foco, de hierarquização de prioridades, do que uma suposta alienação.


E com base nessa hipótese quero compartilhar com vocês uma experiência pessoal, um ponto de inflexão recente em minha vida.


Há cerca de dois anos resolvi olhar para fora da grande redoma digital e acionar, em determinados períodos do dia, o meu “modo avião” interno, intensificando um processo de curadoria mental.


Precisava abastecer minha mente com informações mais úteis, relevantes, que proporcionassem meu crescimento pessoal.


Percebi que o consumo indiscriminado de notícias, opiniões e mídias sociais estava me fazendo infeliz e improdutivo. Era necessário estabelecer um modo mais salutar de conviver com elas.


Não foi uma decisão intempestiva, tomada da noite para o dia. Na verdade, isso vinha sendo amadurecido.


Há alguns anos, por exemplo, não acompanho o noticiário diário pelas vias analógicas (televisão, rádios, jornais), só alguns programas de entrevistas ou resumos semanais.


Mas necessitava efetuar essa mesma calibragem na internet. Estava viciado nas redes sociais, ligado 24 horas por dia.


Como jornalista e profissional especializado em marketing digital, sei que as mídias sociais são parte intrínseca de nossas vidas, não há mais volta.


Negá-las, fingindo que não existem, é inútil, mas a forma como as utilizamos pode ser bem mais proveitosa, instrutiva.


Aliás, redes sociais, quando usadas racionalmente, são excelentes ferramentas de conhecimento e transformação.


Foi o que decidi fazer, qualificar o uso das mídias fazendo uma curadoria mais qualitativa e menos quantitativa.


O ponto nevrálgico desse processo foi quando desinstalei o Twitter do celular.

Eu era obcecado pelo Twitter.


Seguia portais, blogs, humoristas, celebridades, influenciadores, políticos, tudo que estava hypado. Checava a minha conta a todo o momento, queria saber tudo em primeira mão.


No início, ficar longe do Twitter foi aterrorizador. Mas depois, passada a crise de abstinência, revelou-se uma decisão acertada e libertadora.


O Twitter, entre todas as redes sociais, é o maior catalizador de distrações do mundo.


Ele é rápido, não precisa de imagem ou vídeo, e com facilidade pode te levar para outros tuítes, redes sociais, sites, enfim, é um verdadeiro buraco negro digital.


O feed não para um instante.


Sim, eu sei, dá para aplicar filtros, ser mais criterioso em quem seguir, mas basta um retuite indesejado no seu feed, com links, replies e tudo o que o diabo gosta, para colocar tudo abaixo.


Desde que desinstalei o aplicativo, meu tempo e produtividade aumentaram. Ainda mantenho minha conta, que acesso de vez em quando, mas não via celular.


No Facebook, a solução foi fazer uma seleção caprichada no “Ver Primeiro”.


Para quem não sabe, podemos escolher até 30 páginas cujo conteúdo queremos receber primeiro em nosso feed.


Funciona de forma espetacular. Com isso, você elimina um bocado de conteúdo irrelevante do seu feed e reduz a frequência de acessos. Basta entrar uma única vez e olhar as postagens das páginas que importam.


No Instagram, uma seleção criteriosa das contas a serem seguidas ajuda muito.


E, lógico, vale a pena ser mais rigoroso nas curtidas, nos comentários e nos posts salvos, pois é com base na interação que o algorítimo do Instagram (e de todas as redes sociais) faz a curadoria do seu feed.


E se eu praticamente zerei o consumo do Twitter e reduzi e qualifiquei do Facebook e Instagram, aumentei consideravelmente o uso de uma rede que antes eu tratava com certa negligência, o Youtube.


Digo negligência pois eu não seguia nenhum canal, só procurava o que queria assistir no momento e pronto.


Quando percebi o potencial dessa máquina quando corretamente pilotada, mudei a forma como organizo e consumo conteúdo hoje em dia, principalmente depois que passei a utilizar o Apple TV.


Com ele assisto o Youtube na TV, que é muito, mas muito melhor do que ver pelo notebook ou pelo celular.


Assino mais de 300 canais, dos mais diversos possíveis.


Do Rabino Dudu a Rafinha Bastos.


Do Nexo ao Ideias Radicais.


Do Buenas Ideias ao Cortella.


Do Caminho de Luz à Máquina do Esporte.


Do Nostalgia ao Philos.


Do Desempedidos ao Quatro Amigos.


Do Pânico ao Inspire Fundo.


Do Marcos Piangers ao TecMundo.


Do My News à Mônica de Medeiros.


Do Democracia na Teia à Mídia Ninja.


Da Paneloterapia à Nerdologia.


Do Ilustradamente ao Poligonautas.


Do TED ao MOVA.


Do NeuroVox à Pozatti Filmes.


Da Luz da Serra à Leda Nagle.


Da Casa do Saber à Fronteiras do Pensamento.


Dos Barbixas ao CanalTech.


Mas, assim como em outras redes sociais, entro geralmente uma vez por dia, para me divertir, me informar, aumentar meu conhecimento, dependendo do meu estado de espírito.

Na verdade, meu grande barato atualmente são o Youtube e livros.


Como mencionei no podcast "Pare de comprar livros e comece a ler mais", desde que doei meus livros e voltei a frequentar bibliotecas, nunca li tanto, de 3 a 4 livros por mês.


Essa combinação de Youtube e livros me mantem atualizado, com a mente viva, saudável e produtiva.


Me mantem num salutar estado de modo (quase) avião.


Mas, Denis, como você se informa sobre assuntos profissionais?


Bom, no Facebook, no Instagram, no Linkedin e no Youtube sigo várias contas cujo conteúdo diz respeito aos meus interesses profissionais.


E, além disso, uso significativamente o Google Alerta.


O Google Alerta é fabuloso. Você escolhe os temas que lhe interessam e, uma vez por dia, ele manda para seu email as principais publicações sobre os assuntos escolhidos.


Ele é um excelente otimizador de tempo.


Em vez de ficar caçando notícias ou procrastinando nas redes sociais até chegar em algo que lhe interesse, o Google manda para você 😉. Também costumo me cadastrar para receber newsletter de sites com conteúdo relevante.


Mas e sobre notícias importantes, que estão fora do radar do Google Alerta e das redes sociais que você priorizou?


Confesso que esta questão causou em mim uma inquietude, um expressivo conflito interno.


Afinal, como jornalista, preciso saber das notícias macro, de grande impacto. Como conciliar estes dois lados, a necessidade de estar informado mas a vontade de não afundar num mar de informações? Não sabia muito bem. Mas resolvi arriscar e ir adiante em minha decisão.


E, aos poucos, fui percebendo que não havia motivo para preocupação.

Me dei conta que as notícias que você precisa saber (sejam de grande ou baixo impacto) chegam até você. Pode até demorar um pouco, mas chegam.


Vou dar dois exemplos, de notícias totalmente distintas, que recebi de fontes e maneiras não digitais.


O primeiro foi sobre a morte do escritor Philip Roth, por quem tenho profunda admiração.


Fui saber de sua morte um dia depois, quando, dirigindo, resolvi procurar alguma música no rádio e me deparei com a voz do Mario Sergio Cortella.


Como gosto dele, deixei na estação para ouvir o que ele estava falando. E era sobre justamente sobre o escritor, tendo como gancho o seu falecimento.


O segundo foi sobre a chacina na escola de Suzano, que recebi quando estava esperando para começar uma reunião.


Um dos participantes comentou: “vocês viram que absurdo o que aconteceu em Suzano?”. Daí, logicamente, todos os presentes começaram a dar detalhes e eu fiquei sabendo do triste ocorrido.


Portanto, não há muito motivo para preocupação. A notícia que você precisa receber, chegará até você. Mesmo que você não queira...


E, para finalizar, quero falar sobre a tal bolha que muitos dizem que entramos quando começamos a selecionar o conteúdo que recebemos em nossas redes sociais, e que isso acaba sendo prejudicial.


De fato, quando não bem gerida, essa curadoria pode acarretar num certo pensamento oblíquo. A pessoa acaba fazendo uma “autolavagem” cerebral e diminuindo seu poder crítico. Mas basta saber dosar os lados, equilibrar visões antagônicas oriundas de fontes diversas, para que isso não ocorra.


Além disso, é sabido que o ser humano sempre viveu em bolhas. Desde os tempos mais remotos nós buscamos conviver com pessoas por afinidades, interesses, seja ele por proximidade física, sobrevivência, crenças, amor, simbiose ou paixão futebolística.


A bolha não é uma invenção das redes sociais.


Ao longo da vida, temos que escolher entre algumas bolhas, de acordo com nosso propósito, nossa natureza, para focar em nossa missão de vida. É perfeitamente natural.


Cada escolha é uma renúncia. E por isso ela traz vantagens e desvantagens, não existe a escolha 100% perfeita. Não dá pra fazer parte de tudo, o tempo todo.


A boa notícia é que não precisamos escolher uma bolha só, podemos e devemos estar presentes em várias, desde que isso tenha um sentindo, estejam alinhados com a nossa curadoria, o nosso desejo de realização.


Escolher bolhas não significa menosprezar ou fingir que as demais não existem. Não! Sei que elas existem e respeito sua dinâmica, sua essência, só não quero fazer parte delas. A mim não interessa, por exemplo, fazer parte de bolhas centradas na ganância, na ostentação, na mentira, no ódio, na futilidade, no preconceito, em tragédias.


As bolhas que eu escolhi para mim são de temas que importam para meu crescimento pessoal e espiritual, para que eu possa retribuir à sociedade o que ela me deu, deixar meu legado para um mundo melhor, sendo mais presente, mais relevante, com menos mídias sociais e com mais experiências reais, significativas.


E qualquer que sejam suas bolhas, o importante é estarmos sempre aprendendo, nos reinventando e buscando fazer com que a nossa convivência, a aplicação do nosso conhecimento ajude a transformar o mundo em um lugar melhor.


Abrace o mundo, pensando globalmente e agindo localmente, fazendo a diferença nas suas bolhas.


Denis Zanini Lima

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