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  • Pensar a Dois

“Fronteiras são linhas imaginárias”


Vivemos em um mundo louco que evolui aos poucos pela contramão. Assim diz o poeta Djavan. Dizem os grandes mestres que evoluímos pela dor ou pelo amor. Uma coisa é certa. As pessoas que são obrigadas a sair das suas casas, das suas cidades, dos seus países, para não correrem o risco de morrer, estão vivendo uma grande dor. E onde está a evolução em tudo isso? Seria uma fuga ao encontro do amor, pela contramão?


Só que não?


Para a maioria, a dor persiste quando chegam em um país onde geralmente continuam “se escondendo”, para não serem pré-julgados e discriminados. Como se eles não fossem iguais a todos nós. Retrato através das breves palavras desse texto, todos os refugiados, em especial as mulheres e os negros.


Eu participo de um projeto liderado pelo Comitê de Inserção de Refugiados, no qual o nosso objetivo é fazer a ponte entres as Instituições e as ONGs para inserção dos refugiados ao mercado de trabalho em São Paulo. Em um projeto específico, atuamos como voluntárias junto à ONU mulheres, ACNUR e Pacto Global, onde temos eventos mensais e sessões de coaching para um grupo de refugiadas. O projeto é grandioso e enriquecedor para as participantes, bem como para nós voluntárias.


Elas aprendem muitas coisas, entre elas, como elaborar um currículo, se portar em uma entrevista de emprego, cultura brasileira, leis trabalhistas, leis que amparam a mulher que sofre violência doméstica, entre outras informações importantes para elas poderem dar continuidade aos seus sonhos em um país “estranho”.


E nós aprendemos como respeitar a situação de cada uma delas, a não invadir com perguntas sobre suas vidas, culturas, religiões. Aprendemos a dar suporte dentro das condições que elas possuem em absorver as informações. Aprendemos a ir até onde elas podem permitir. Como eu sempre costumo falar, “ensinar” é a melhor forma de aprender. Me atrevo a dizer que essa troca faz ambos os lados evoluírem como seres humanos.


São muitas as nacionalidades das refugiadas, em sua maioria são venezuelanas, sírias, congolesas. São histórias incríveis de sofrimento. Porém, histórias de coragem. Sair do seu país sem meios para sobreviver e migrar para outro, distante de tudo e todos, em sua maioria, distante das famílias, não deve ser nada fácil.


Chegam em outro país e sofrem o pré-conceito por serem refugiados, pela cor, por não falar a língua local e, para as mulheres, por serem mulheres.


Caros leitores vocês sabem o que é refúgio?


Outro dia, escutei em um dos workshops do projeto citado, uma jovem congolesa dizer: “Eu não nasci refugiada. Eu não sabia que ia ser refugiada. Eu não sabia que estaria aqui no Brasil hoje como refugiada. Deus não me falou que eu seria refugiada. Não entendo porque as pessoas nos apontam como refugiadas e como se isso fosse uma doença contagiosa. Também não somo criminosos.”


Ao contrário do que muita gente pensa, ser refugiado não é estar fugindo de um país porque se cometeu um crime. Ser refugiado é fugir de seu país de origem para se livrar de um perigo. Infelizmente a falta de conhecimento potencializa o pré-conceito. Distancia o acolhimento a estes seres que são iguais a nós. E bloqueia o acesso às empresas que poderiam ter em seus times pessoas comprometidas e agradecidas pela oportunidade do trabalho.


Tenho a certeza de que muitas pessoas devem estar pensando, mas porque ajudar um refugiado quando temos tantos brasileiros precisando de ajuda? Sinceramente, ajudamos quem quer ser ajudado. Essas pessoas estão longe de casa, sem família, muitas vezes sem esperança de um dia reencontrar seus familiares. Elas atravessaram fronteiras em situações terríveis, na esperança de um dia conseguir ser alguém novamente e trazer seus familiares a salvo para perto deles.


Imaginem-se em um país estranho, sem dinheiro, sem abrigo, com filhos, muitas vezes sem comida e sem saber falar a língua local? Difícil, não? Então por que não podemos ajudá-los? Porque não podemos acolhê-los em nosso País de forma digna, sem pré-conceitos? Por que não podemos juntá-los a nós?


Essas pessoas não escolheram nascer em países que passam por conflitos políticos e guerras. Migrar para outro país de forma “forçada” não deve ser muito agradável.

Se eles estão evoluindo através da dor pelas circunstâncias as quais se encontram, e nós? Não podemos evoluir como cidadãos acolhedores e como Nação? Nós não estamos no mesmo barco? Seríamos nós melhores do que eles? Mas o que nos leva a essa conclusão?


Caros leitores, um mundo em evolução é misturado, miscigenado, colorido, diverso, receptivo, caridoso e criativo. Não existem fronteiras para o nosso crescimento individual e coletivo. Não existem fronteiras para a nossa evolução moral e espiritual. Os refugiados são nossos professores. As linhas criadas como fronteiras são linhas imaginárias em nossas mentes.


Priscylla Spencer


A Foto do grafite abaixo inspirou o título desse artigo.

Grafite de Fitz Florencia Duran – Colectivo Licuado - "Fronteiras são linhas imaginárias"


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