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  • Pensar a Dois

As verdadeiras vítimas do vitimismo



Imagine que VOCÊ é um smurf.


Sim, um smurf, aquele simpático personagem azul dos desenhos.


Imaginou?


Ok.


Agora imagine que VOCÊ é um smurf muito especial, com o dom da vida eterna. Isso mesmo, VOCÊ nunca irá morrer. VOCÊ recebeu essa dádiva pois sua incumbência será registrar e ser o guardião de toda a história dos smurfs.


Legal, né?


Só que não.


Instantes depois de ser contemplado com esse poder, VOCÊ e todos os smurfs foram capturados e escravizados pelo terrível Gargamel. Todos são retirados da floresta e enviados como escravos para o Mundo de Gargamel, também conhecido como Gargamelândia. No decorrer do trajeto, muitos adoecem, ficam inválidos ou morrem.


Durante 3 séculos, Gargamel e seus descendentes cometem todo tipo de atrocidade contra VOCÊ e a raça azul: privação de liberdade, morte, tortura, estupro, trabalho forçado, perseguição e toda sorte de humilhação e horror. Famílias são separadas, violentadas, ultrajadas.


Aos smurfs só era dado o direito de sobreviver para trabalhar até à morte para Gargamel e seus descendentes. VOCÊ e seus irmãos de cor eram uma mercadoria, um produto, como um boi, uma penteadeira, uma lata de Parquetina.


Depois de um determinado período, os descendentes de Gargamel (também conhecidos como gargamelzinhos) perceberam que escravizar os smurfs não era mais um negócio tão interessante e decidem libertá-los. Essa decisão não foi impetrada por nenhum espírito humanitário, e sim por mero interesse comercial.


Livres, mas sem educação, sem dinheiro, sem posses, VOCÊ e o smurfs continuam sendo a escória da sociedade, tratados como sub-humanos. Para sobreviver não lhes restam muitas opções, a não ser continuarem em trabalhos degradantes ou na marginalidade.


Contudo, aos poucos, com muito esforço, trabalho, luta, coragem, resiliência, inteligência, inconformismo, força, estudo, união, amor, VOCÊ e o smurfs vão conseguindo seus direitos, um espaço mais digno na sociedade.


São reconhecidos como cidadãos. Conseguem educação, empregos mais dignos, direito a voto, acesso a bens de consumo, ter voz ativa na sociedade. Conseguem fazer com que sua luta, sua história, sua cultura, seus valores e seu legado sejam gradativamente respeitados e valorizados. Conseguem até um dia especial para ser celebrada a sua história, O Dia da Consciência Azul.


Isso é um grande avanço, embora, até hoje, mais de 130 anos depois do fim da escravidão, o preconceito e menosprezo envolvendo a raça azul ainda resistam. Às vezes de forma camuflada, as vezes de forma mais explícita. Os grilhões foram quebrados, mas seus efeitos nefastos continuam ecoando até hoje.


Alguns fatos que comprovam essa afirmação:


• De cada 100 vítimas de homicídio no Mundo de Gargamel, 71 são smurfs (1) • O rendimento médio mensal de um gargamelzinho é de R$ 2.814 e de um smurf é de R$ 1.570 (2) • A taxa de analfabetismo entre os gargamelzinhos é de 4,2%; já entre os smurfs é de 9,9% (3) • A taxa de desocupação entre gargamelzinhos é de 9,5% e entre os smurfs é de 13,6%; (4) • Entre os 10% da população mais pobre da Gargamelândia, 75% são smurfs (5) • Entre o 1% da população mais rica do Mundo de Gargamel, apenas 17% são smurfs (6) • Apenas 4% dos senadores, deputados federais e estaduais da Gargamelândia são smurfs (7) • Menos de 5% dos cargos do alto escalão das 500 maiores empresas do Mundo de Gargamel é ocupado por smurfs (8)


Mesmo diante desses números nauseantes, calamitosos e cruéis, alguns descendentes de Gargamel acham que isso é vitimismo, mimimi, coisa de gente acomodada que não quer batalhar para conseguir um lugar de destaque, ganhar mais, ter uma vida mais digna.


E falam isso justamente para VOCÊ. VOCÊ que com séculos de vida sofreu e viu todas as atrocidades possíveis, parentes, amigos, conhecidos e as pessoas que você amava serem humilhadas, torturadas, mortas, trabalhando em condições sub-humanas, sendo discriminadas pela cor da pele.


Falam isso para VOCÊ e toda a raça azul, que mesmo diante de todas as adversidades, nunca desistiram, sempre trabalharam, estudaram e sabem que diariamente precisam se impor, se dedicar de corpo e alma bem mais do que os outros, ter muito mais coragem que a média, pois o fardo que pesa nas costas azuis é bem mais pesado do que o fardo que os gargamelzinhos carregam.


O natural seria sentir um ódio colossal dessas pessoas. Gente que nunca, nos piores momentos de sua vida, sofreu sequer 1% do que você e toda a raça azul enfrentam ou já enfrentaram.


E além do vitimismo alguns desses descendentes de Gargamel ainda defendem a tal meritocracia social...Como se as oportunidades de evolução e as barreiras existentes para uma smurffete semianalfabeta da periferia da Gargamelândia fossem iguais a de um gargamelzinho de classe média que mora na região nobre.


Quando confrontados com a injustiça e incoerência dessa ideia, geralmente esses gargamelzinhos usam a clássica argumentação de que existem smurfs juízes, donos de empresas, médicos, que ganham muito bem. Nem percebem – ou não se importam - que estão defendendo uma velha e tacanha falácia de tratar a exceção como regra, para justificar um ponto de vista enviesado e de embasamento frágil...


Outra linha de defesa do pensamento desses gargamelzinhos é apontar que existem povos e raças que foram escravizados no passado (como os Ursinhos Carinhosos e os Teletubbies) que hoje tem o mesmo status social dos descendentes de Gargamel e que não ficam reclamando de preconceito.


Com muita paciência, VOCÊ tenta explicar que cada povo tem suas idiossincrasias, sua história, uma trama complexa de fatos ocorridos em tempos, lugares e contextos únicos, que fazem com que os efeitos da opressão sobre a trajetória de cada um desses povos sejam sempre diferentes. E vale lembrar: os Ursinhos Carinhos e os Teletubbies são exceção, não a regra. A regra é que a maioria dos povos escravizados por muito tempo sejam dizimados.


VOCÊ fala, tenta explicar, mas em vão... Esses descendentes de Gargamel não querem ouvir.


E nem dão trela para os “aborrecimentos” do cotidiano dos smurfs, como as insistentes revistas as quais a raça azul é obrigada a se submeter, o “zelo excessivo” dos seguranças quando membros da raça azul entram em estabelecimentos comerciais, o olhar de estranhamento de alguns descendentes de Gargamel quando um ou mais smurfs entram em locais um pouco mais, digamos, sofisticados, a presença quase nula de smurfs como protagonistas propositivos na mídia, etc.


Mas os muitos séculos de vida trouxeram-lhe sabedoria, serenidade e uma compreensão mais ampla da vida. Embora VOCÊ sinta uma justificada raiva, ela se mistura a um sentimento de pena, muita pena dessas infelizes criaturas.


Pois VOCÊ sabe muito bem que na verdade as verdadeiras vítimas do vitimismo são elas, os defensores dessa tese.


Sim, essas pessoas são vítimas de uma abissal ignorância histórica, de uma total alienação sobre a realidade da Gargamelândia, somada à falta de empatia e espírito humanitário, indiferença às injustiças sociais e uma certa “má vontade” em conviver e respeitar pessoas que são, digamos assim, “diferentes”.


Ou, talvez, não sejam vítimas de nada.


Sejam apenas racistas mesmo.


Mas VOCÊ é superior a tudo isso. Mesmo com essa corrente do vitimismo e outras teses sutis de racismo se alastrando, VOCÊ e toda a raça azul continuam com muito orgulho defendendo seu poder, seu protagonismo, seus valores, sua história.


Porque a luta dos smurfs não irá parar até que a igualdade de direitos e o respeito prevaleçam de fato. Porque, vale sempre lembrar, a Gargamelândia é de TODOS, independentemente de sua raça, credo ou gênero.


*Este é um artigo fictício. Afinal, smurfs não existem. Mas a raça negra e racismo sim. Se você é adepto da teoria do vitimismo racial, espero que este texto propositalmente pueril sobre empatia, escrita especialmente para VOCÊ, sirva para refletir sobre seus conceitos.


Denis Zanini


Fontes:

(1) Atlas da Violência 2017

(2) Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua 2017) - IBGE

(3) Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua 2016) - IBGE

(4) Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua 2017) – IBGE

(5) Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD 2015) – IBGE

(6) Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD 2015) – IBGE

(7) TSE - 2018

(8) Perfil Social, Racial e de Gênero nas 500 Maiores Empresas do Brasil e suas Ações Afirmativas – ETHOS e BID

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