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  • Pensar a Dois

A Educação Transformada

Atualizado: 28 de Set de 2019

Escola Monteiro Lobato EMOL

“Somos incentivados ao pensamento livre.” Gabriel, 15 anos, aluno da Escola Monteiro Lobato.


“Não somos preparados apenas para o ENEM, sabe? Somos preparados para o mundo lá fora”, Samara, 14 anos, aluna da Escola Monteiro Lobato.


Em 13 de setembro de 2019 visitamos a EMOL - Escola Monteiro Lobato, situada em Diadema, São Paulo. Eu, Priscylla Spencêr, representando o Pensar a 2, juntamente com minhas parceiras de projeto, Tânia Iorillo e Milene Lamarca, da ONG Espaço Ser – Casa Matheus Campos.


Primeiro impacto positivo que tivemos: fomos recebidos por dois alunos, Gabriel e Samara. Eles não só nos apresentaram a escola, como nos falaram dos projetos desenvolvidos por eles. Era perceptível a felicidade de ambos ao nos contar sobre o funcionamento da EMOL. Mais que isso, percebia-se nos olhares de cada um o pertencimento, o quanto estavam sentindo prazer em apresentar algo que eles fazem parte. O prazer em dizer, “é a nossa escola”.


Ao contrário das escolas tradicionais nas quais as turmas possuem salas de aula fixas e os professores vão até os alunos, na EMOL os professores é que têm salas fixas, de matemática, ciências, português... e os alunos vão até os professores. E todas as salas são decoradas com trabalhos manuais feitos pelos próprios alunos.


São verdadeiros ambientes de aprendizagem construídos a partir do que os alunos realizam.


As cadeiras não são enfileiradas como no modelo prussiano, com professor a frente e alunos enfileirados em suas carteiras. Na EMOL os alunos sentam-se em rodas ou em grupos para discutirem os projetos.


Os alunos são incentivados ao poder da fala e da empatia, através de apresentações dos projetos que eles mesmo escolhem. Projetos que exploram problemas atuais, como a violência doméstica contra as mulheres. “Não é a matéria que enriquece a gente, é o pensamento e a conscientização”, diz Gabriel.


A escola propõe que os alunos trabalhem suas aptidões através dos projetos, que abordam também liderança, trabalho em equipe, pensamento crítico e empatia.


“Fizemos projetos para a reunião dos pais, nós apresentamos para os nossos pais.

Escolhemos falar sobre as metodologias de cada professor”, disse Samara, orgulhosa.


Marcia Braghini, diretora da escola EMOL, escreveu um livro, “Uma Escola em Movimento", no qual conta sobre os resultados da experiência que transcendem aos muros da escola.

“No começo foi muito difícil, os alunos reclamavam e tinham dificuldades com os trabalhos em equipe, mas aos poucos foram se adaptando ao novo formato. Trabalhamos muito a empatia e o acolhimento entre eles. Hoje eles sentem tão importantes e fazendo parte da escola, que quando chego para pedir que algum deles apresentem a escola para visitantes, todos querem apresentar”.


Marcia fez um trabalho de formação com os professores, da educação infantil até o oitavo ano, sobre a inteligência emocional para que os mesmos possam trabalhar juntos aos alunos. Esse trabalho começou a ser desenvolvido também do nono ao ensino médio, para o aluno entender como é que as ações deles refletem no futuro deles, sendo o futuro amanhã, ou daqui a muitos anos.


Marcia está sempre a frente e buscando novos projetos para que seus alunos sejam preparados para o mundo lá fora. Estuda agora com as normas da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) como trazer para a escola trabalhos com a comunidade.


Já existem movimentos pontuais, como o projeto que desenvolveram recentemente sobre o Holocausto, e a professora de ciências trouxe o tema do Holocausto Ambiental, com a proposta de que não adianta todo mundo mostrar a preocupação com a Amazônia, se não cuida nem da plantinha que existe em casa.


“Quando eu disse para os professores que faria a reunião dos pais com a apresentação dos alunos, eles ficaram receosos com o que poderia acontecer. Mas mesmo com o medo, fomos, e tivemos que dar um ultimato para que os pais viessem ver os filhos, pois, caso contrário, estaríamos correndo o risco de frustrar esses alunos. O que também aconteceu”, afirma Márcia.


A adesão dos pais foi de apenas 50%.


Bem maior que nos outros anos, pois foram os alunos que a fizeram.


“Infelizmente é uma tarefa árdua a aproximação dos pais as atividades escolares dos filhos. A mentalidade ainda é muito em cima de querer saber se o filho tirou boas notas. Quando chamamos os pais para relatar algum comportamento diferente do aluno, alguns pais simplesmente ignoram e falam que ´vai passar´”.


A EMOL não tem semanas de provas. As provas podem acontecer a qualquer momento. Não existe uma regra. O professor é livre para avaliar o aluno da forma quiser, com atividades individuais, em grupo, para casa. Mas tem que usar critérios muito claros e bem estabelecidos com os alunos.


“O nosso sistema de avaliação ainda não é o que eu desejo. Mas estamos caminhando para melhorar”, revela Marcia.


A recuperação é trimestral, e não no final do ano como a maioria das escolas. Se o aluno não foi bem em uma atividade, o professor já faz recuperação paralela. E a nota anterior é relevada. O que vale é a atual, para valorizar o esforço do aluno. A avaliação é um processo que revela se o aluno aprendeu ou não.


“Os resultados desse formato são muito gratificantes. Os alunos do terceiro ano, que iniciaram o projeto quando estavam do oitavo para o nono ano, falam para os menores o quanto eles são melhores hoje, o quanto eles aprenderam a acolher os amigos. A nossa afinidade é tão grande que os próprios alunos nos trazem informações quando acham que os amigos não estão bem. Estamos construindo relacionamentos com empatia. ‘Coragem é o que me faz seguir em frente com esse modelo’”, afirma Márcia.


A EMOL é uma constatação de que sim, podemos transformar a educação deste País.

Aprendemos que a coragem e o engajamento são fundamentais para o início do processo nessa transformação. Tudo é um processo!


Essa é nossa mensagem a todos os educadores do Brasil:


Transformem a escola em um ambiente onde os estudantes sintam-se em casa, confortáveis para falar, expor ideias, criar, compartilhar, trabalhar em conjunto. E, acima de tudo, permitam a liberdade do ser para esses seres em formação.


Sabemos que são muitos passos a serem dados, e necessitam de análises diversas, como as adequações das atividades as faixas etárias, análise da grade curricular, custo com a reciclagem dos professores e novos profissionais etc.


Como disse o grande mestre Mário Sergio Cortella em uma de suas palestras: “estamos vivendo um tempo de reviravoltas sem precedentes: na tecnologia, no trabalho, nas relações. Nesse contexto, mudar não é apenas imprescindível, mas inevitável. Principalmente quando se fala em educação”.


Artigo: Priscylla Spencêr

Revisão: Denis Zanini Lima



Leia também o nosso MANIFESTO sobre Educação: Por uma educação liberta e criativa

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